20/12/2013
O amor não dá nada além de si mesmo e não toma nada além de si mesmo.
O amor não possui nem é possuído;
Pois o amor é suficiente ao amor.
KHALIL GIBRAN : Líbano (1883-1931). Ensaísta, Filósofo , Prosador e Poeta. Seu nome completo, que assinava em idioma oriental era Gibran Kahlil Gibran, como também assinava em árabe (ܓ̰ܒܪܢ ܚܠܝܠ ܓ̰ܒܪܢ ) , que abreviou e ligeiramente modificou para Khalil Gibran ,quando transferiu suas atividades para o Ocidente, onde sua produção intelectual foi intensa, mas pode-se grafar com o "h" antes ou depois do "a" . Um dos maiores poetas e prosadores dos tempos modernos, admirado em todo o mundo, ocidental e oriental. Com influência mística tipicamente orientalista, também bebeu das fontes filosóficas da Bíblia, de Nietzsche e Wiliam Blake, surgindo, dessa observação mista de orientações, além do seu próprio pensamento, a sua originalidade de estilo e de filosofia. Escreveu sobre o amor, a amizade, a natureza, e todos os sentimentos e esperanças humanos em uma linguagem em forma de parábolas, como é do gosto dos povos orientais. Conseguiu transmitir, com o seu modo peculiar de se expressar, misturando poesia à prosa, aos leitores orientais e ocidentais, o aprofundamento de análise em temas imateriais, analisando os aparentes contrastes entre o positivo e o negativo de cada conceito de cada um desses temas, para, ao final, demonstrar, com magistralidade, que ambas essas visões são complementares entre si para formarem a unidade dos sentimentos humanos.
Muitas são suas obras primas, mas a sua Magnum Opus é o livro "O Profeta", de onde foi extraído o pensamento de hoje. Trata-se de uma parábola, em que Gibran apresenta a figura de uma barca que conduzirá o Profeta para além do nosso mundo, que é retratado como a hipotética cidade de Orphalese. Ali o Profeta teria permanecido por doze anos, conhecendo e vivenciando os sentimentos humanos. E o Profeta retornará, em uma barca encantada, à ilha onde nasceu, separada de nós por um oceano intransponível para aqueles que ainda não alcançaram o verdadeiro conhecimento. Antes que ele parta, os habitantes lhe pedem que continue a iluminar a sua vida, ensinando-os sobre suas observações sobre o ser humano, o que ele faz nas magníficas folhas escritas nesse livro . E, ao seu pedido para que não parta, ele promete:
"Não esqueçais que voltarei a vós.
Em pouco tempo, um momento de descanso ao vento, e uma outra mulher me dará a luz.
Adeus a todos e à juventude que passei convosco.
Foi apenas ontem que nos encontramos em um sonho.
Vós cantastes para mim em minha solidão, e de vossos desejos construí uma torre no céu."
Não podemos deixar de brindá-los, nessas vésperas da data do nascimento dAquele que personificou, para a nossa Humanidade, o Amor , o belíssimo texto extraído do mais célebre e admirado livro de Gibran, justamente aquele que nos fala sobre o Amor, em sua tradução, em português, de Bettina Becker. E por isso o transcrevemos. Esse texto, é uma resposta do Profeta Mustafá à sacerdotisa Almitra, de Orphalese, a primeira que o acolheu na cidade e a primeira a dirigir-lhe o pedido de lhes dar sua sabedoria : (*)
"Disse, então, Almitra : Fala-nos do Amor.
E ele levantou a cabeça e olhou para as pessoas, e o silêncio caiu sobre eles. E com uma voz poderosa ele disse:
Quando o amor vos chamar, segui-o,
Apesar do seu caminho ser duro e íngreme.
E quando suas asas vos envolverem, abraçai-o,
Apesar da espada escondida entre suas pernas poder ferir-vos.
E quando ele falar convosco, acreditai nele,
Apesar de sua voz poder esfacelar vossos sonhos como o vento norte arruína o jardim.
Pois mesmo quando o amor vos coroa, ele vos crucifica. Mesmo sendo para o vosso crescimento, ele também vos poda.
Mesmo quando ele chega à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que tremem ao sol,
Ele também desce até vossas raízes e abala a vossa ligação com a terra;
Como feixes de milho, ele vos une a si próprio.
Ele vos ceifa para desnudar-vos.
Ele retira vossas espigas.
Ele vos mói até ficardes brancos.
Ele vos amassa até ficardes moldáveis;
E depois ele vos designa ao seu fogo sagrado, para que vós vos torneis o pão do sagrado festim de Deus.
Todas estas coisas o amor fará convosco até que conheçais os segredos dos vossos corações, e, através deste conhecimento, vos torneis fragmentos do coração da Vida.
Mas se, por medo, buscardes apenas a paz no amor e o prazer no amor,
É melhor que cubrais a vossa nudez e que passeis da eira do amor
Para o mundo sem estações, onde rireis, mas não todo o vosso riso, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor não dá nada além de si mesmo e não toma nada além de si mesmo.
O amor não possui nem é possuído;
Pois o amor é suficiente ao amor.
Quando vós amais, não deveis dizer :'Deus está no meu coração', mas sim 'Estou no coração de Deus'.
E não penseis que podeis dirigir o curso do amor, pois o amor, se achar que mereceis, dirige o vosso curso.
O amor não tem outro desejo além de satisfazer a si mesmo.
Mas se vós amais e precisais ter desejos, que sejam estes os vossos desejos :
Derreter e ser como um riacho que corre e canta sua melodia para a noite.
Conhecer a dor do carinho demasiado.
Ser ferido pela vossa própria compreensão do amor;
E sangrar por vossa própria vontade e com alegria.
Acordar ao amanhecer com o coração leve e agradecer por mais um dia de amor;
Descansar ao meio-dia e meditar sobre o êxtase do amor;
Voltar para casa ao entardecer com gratidão;
E então dormir com uma prece ao bem-amado em vosso coração e uma canção de louvor em vossos lábios."
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(*) O Profeta, de Khalil Gibran, tradução de Bettina Becker, revisores Jó Saldanha e Renato Deitos editora L&PM POCKET, vol. 222, 2001, páginas 22-25.